|
É TEMPO DE
FESTA. É TEMPO DE ESTUDO
(BREVE
CONVERSA SOBRE AS CATEGORIAS DE ESTUDO DO TEMA INTEGRADOR)
Eloísa Helena de Campos Costa
Supervisão Escolar - 2008
É tempo de festejar:
o CMRB (Colégio Municipal Rui Barbosa) comemora 30 anos. É tempo de memória:
quantas experiências pessoais e coletivas a relembrar, quantos causos a
contar... É tempo de história: quantos fatos, ações e particularidades a serem
resgatados e registrados...
Quem escreveu /
escreve essa história? Que limites conseguiram superar? Com que possibilidades
contar?...
O Tema Integrador “30
ANOS DO COLÉGIO MUNICIPAL RUI BARBOSA. ULTRAPASSANDO OS LIMITES” traz consigo um
clima de alegria e de festa, a ser vivido especialmente no momento da Gincana de
Integração. Mas, sobretudo, instiga-nos a estudar e pesquisar, pois queremos
entrelaçar ao movimento lúdico, a seriedade dos propósitos
pedagógico-educativos. Queremos aproveitar esse tempo de festa para brincar e
cantar, mas também para contar e recontar a história do CMRB, garantindo o seu
registro, para, assim, preservar a sua memória.
Para organizar melhor
os estudos e pesquisas (bibliográfica e de campo), selecionamos algumas
categorias básicas: história, memória, sujeito histórico e
patrimônio, cujo início de conversa pode se dar a partir da identificação
da forma como se relacionam e dos elementos que as diferenciam.
Quando falamos em
história e memória, muitas vezes nos referimos a um único conceito, com se
fossem palavras sinônimas. Para o senso comum, história e memória dizem respeito
meramente aos acontecimentos passados e a lembranças vividas. As definições, por
vezes, podem nos confundir, uma vez que uma completa a outra, uma dá significado
à outra. Entretanto, um olhar mais aprofundado nos revela as diferenças.
De acordo com Motta
(1998, p. 75-76), a memória “constrói uma linha reta com o passado, se
alimentando de lembranças vagas, contraditórias, sem nenhuma crítica às fontes
que – em tese – embasariam esta mesma memória”. Quando uma pessoa fala de suas
memórias de infância, dos acontecimentos bons ou difíceis de sua vida, ela pensa
que está contando sua história de forma contínua, pois a memória retira do
passado apenas alguns elementos que possam lhe dar uma forma ordenada e sem
contradições.
Ao contrário da
memória, segundo a referida autora, “a história aposta na descontinuidade, pois
ela é, ao mesmo tempo, registro, distanciamento, problematização, crítica,
reflexão”. A história denuncia e investiga o passado não apenas a partir de
consensos, mas também de conflitos. A história pesquisa as fontes e as
reconstrói a partir de uma teoria. Assim, muitas vezes, a história deslegitima o
passado construído pela memória.
As memórias são
fontes históricas, pois ajudam a saber o que tem sido lembrado, recordado por
uma pessoa ou grupos. Não podemos deixar de mencionar, entretanto, que a memória
pode trazer uma boa dose de inventividade, pois o contato com a realidade nem
sempre revela a realidade exata. Muitas vezes a memória é manipulada por pessoas
ou grupos sociais que decidem o que deve ser lembrado e o que deve ser
esquecido, com o objetivo de controle sobre outros grupos. Os usos ideológicos a
que a memória está sujeita constituem os chamados “lugares de memória”. As
Orientações Curriculares para o Ensino Médio - Área de Ciências Humanas e suas
Tecnologias (2008, p. 78) descrevem os lugares de memória como criação da
sociedade contemporânea para impor determinada memória, considerando-os “formas
de violência simbólica que silenciam e uniformizam a pluralidade de memórias
associadas a diversos grupos sociais”.
Conforme afirma Costa
(2005), a discussão sobre a relação entre história e memória é bem recente
dentre as gerações de historiadores, sendo que, atualmente, muitos autores
concordam que
A memória não pode
ser vista simplesmente como um processo parcial e limitado de lembrar fatos
passados, de importância secundária para as ciências humanas. Trata-se da
construção de referencial sobre o passado e o presente de diferentes grupos
sociais ancorados nas tradições e intimamente associados a mudanças culturais.
(Costa, 2005, p.
48-49)
A
memória pode ser considerada sob dois aspectos: memória natural (propriedade que
o indivíduo possui de conservar certas informações) e memória objeto de registro
da história e instrumento para o historiador (Costa, 2005, p. 48).
Em nosso trabalho de
pesquisa do Tema Integrador, faremos uso da memória enquanto instrumento de
construção do registro da história do CMRB. Através dos depoimentos recolhidos
junto aos sujeitos envolvidos e também através de documentos, fotografias,
cadernos, recortes de jornal e revista, uniformes e outros objetos, poderemos
resgatar a memória e a história do Colégio, assim como contextualizá-lo no tempo
histórico, reafirmando sua identidade.
É por meio da memória
que os sujeitos do processo histórico buscam salvar o passado do esquecimento,
edificando o presente e o futuro, colaborando para a formação da identidade,
individual e coletiva.
(Fressato, s/d)
Enfim, o trabalho com
memória possibilitará que os novos alunos e os novos profissionais do CMRB
conheçam um passado que, mesmo não tendo sido vivido por eles, foi decisivo para
o que acontece hoje no Colégio, ou seja, para o que vivem hoje. Nossa proposta,
ao valorizarmos o trabalho da memória, não é apenas resgatar experiências e
vivências do passado, mas construir o presente.
Quando nos referimos
ao conceito “história”, encontramos vários significados, desde a descrição
factual e linear dos acontecimentos, até a concepção científica, fruto de
estudos mais aprofundados para “explicar tanto as permanências e as
regularidades das formações sociais quanto as mudanças e as transformações que
se estabelecem no embate das ações humanas” (Orientações Curriculares para o
Ensino Médio, 2008, p. 73).
Sabemos que a
história das sociedades não é resultado apenas das ações de homens que se
destacaram, dos grandes líderes políticos, dos poderosos do momento, dos
estadistas, mas sim das ações de todos os agentes sociais, individuais ou
coletivos, os tantos anônimos que também fizeram a história com suas atividades,
pensamentos e sentimentos cotidianos.
De acordo com as
diretrizes dos Princípios Filosóficos incluídos no Projeto Político-Pedagógico
do CMRB (2008), o Colégio deve contribuir para a mudança da sociedade, uma vez
que esta é uma de suas funções. Neste sentido, referem-se à visão de sujeito
histórico como “um sujeito mergulhado em um contexto histórico-social concreto,
podendo mudar ou conservar a realidade em que vive”.
Na verdade, todos nós
passamos pela história ou dela fazemos parte, como sujeito históricos de sua
construção.
Toda
a coletividade, os grupos sociais, enfim, a forma como todas as pessoas viveram
e vivem tornou-se importante para a história. Os sujeitos da história são os
agentes da ação social, aqueles que exprimem suas especificidades e
características em determinado contexto, que alteram ou mantêm os hábitos e
valores de um local. Resumidamente pode-se dizer que os sujeitos da história são
os indivíduos e os grupos sociais que participam dos acontecimentos coletivos,
ou ainda, que estão imersos em situações cotidianas.
(Fressato, s/d)
Destacamos
a importância do Tema Integrador “30 Anos do Colégio Municipal Rui Barbosa:
ultrapassando os limites” não apenas para articularmos o passado ao presente,
por meio da memória. Queremos viver esta experiência como protagonistas de um
mundo que nos diz respeito. Entender que a história de alguém mais velho é a
nossa própria história nos traz um sentimento de pertencimento a um determinado
lugar e a uma certa época, aumentando a percepção de um passado que foi
realmente vivido, e continua vivo, e não que está morto e enterrado (Lima,
2005).
Importa, portanto,
que cada um(a) de nós se sinta parte da história do CMRB, ou seja, entenda-se
como um sujeito que fez, faz e fará esta história. Neste sentido, tornamos-nos
comprometidos não apenas com o presente, mas com o futuro do Colégio, assim como
do contexto em que ele se situa.
Falamos aqui, de um
lugar determinado: somos profissionais e alunos de um colégio público, de um
espaço cultural coletivo, o que nos remete à reflexão sobre mais uma das
categorias de estudo: patrimônio.
Durante muito tempo,
o próprio IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)
considerava patrimônio apenas a arquitetura barroca, preservando
prioritariamente o patrimônio religioso. A partir da década de 80, a idéia de
patrimônio foi ampliada, passando a ser acompanhada do adjetivo cultural e “as
instituições de preservação passam a entender que há outros tipos de patrimônio,
outros saberes e outras populações” (Costa, 2005, p. 54). Na própria
Constituição do Brasil de 1988, em seu artigo 216, temos: “Constituem patrimônio
cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados
individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira (...)”.
De acordo com Machado
(2004), ao se agregar o termo cultural, oportunizou-se a inclusão de diferentes
resultados do trabalho do homem, considerados agora como bens culturais e,
portanto, como patrimônio a ser protegido.
Os
bens culturais que recebemos de outras gerações contribuem para a formação de
identidade de grupos e categorias sociais. Fazem parte da memória coletiva e,
como tal, permitem-nos estabelecer elos de pertencimento com os nossos
antepassados. Desconsiderar essa produção é esquecer nossas raízes.
(Machado, 2004, p. 4)
Sem
dúvida, não temos o propósito de esgotar aqui o estudo sobre as categorias
básicas do Tema Integrador. A partir desse breve estudo, temos como desafio
continuar pesquisando, conversando, lendo, produzindo e socializando textos,
entendendo-nos como sujeitos comprometidos com a própria história da educação de
Cabo Frio, responsáveis por escrever uma pequena parcela dessa história, ou
seja, por reconstruir e preservar a memória do Colégio Municipal Rui Barbosa,
pois ousamos dizer que este Colégio pode ser considerado um patrimônio cultural
da cidade.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ALTENFELDER,
Ana Helena e CLARA, Regina Andrade. Se bem me Lembro... Memórias. Coleção
Escrevendo o Futuro. São Paulo: Fundação Itaú Social, 2004.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade. Lembranças
de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
CLARA, Regina de
Andrade. Se bem me Lembro. Olimpíada de Língua Portuguesa. Escrevendo o
Futuro. São Paulo: Cenpec. Fundação Itaú Social, 2008.
COLÉGIO MUNICIPAL RUI
BARBOSA. Projeto Político-Pedagógico. Cabo Frio, 2008.
CONSTITUIÇÃO FEDERAL.
São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1998.
COSTA, Ângela Navarro
Ferreira da. “Casa da Flor”: Sonho, memória e história. Monografia do
Curso de História. Universidade Veiga de Almeida. Cabo Frio, 2005.
FRESSATO, Sol. De
Mãos Dadas com Mnemosine e Clio. Narradores de memóiras e sujeitos históricos no
filme Narradores de Javé. Acessado em 07/05/08, www. museudapessoa.net/oquee/biblioteca/sol_fressato_narradores_de_jave.pdf
LIMA, Ana. O
Gênero Memórias. In Na Ponta do Lápis.
Almanaque do Programa
Escrevendo o Futuro. Ano 1, número 2, ago-set, 2005. São Paulo: Fundação Itaú
Social.
MACHADO, Maria
Beatriz Pinheiro. Educação Patrimonial. Caxias do Sul: Departamento de
Memória e Patrimônio Cultural, Maneco Leor e Editora, 2004.
MOTTA, Márcia Maria
Menendes. Histórias e Memórias. In MATTOS, Marcelo Badaró (org.).
História. Pensar & fazer. Niterói: Universidade Federal Fluminense –
Laboratório Dimensões da História, 1998.
ORIENTAÇÕES
CURRICULARES PARA O ENSINO MÉDIO. Área de Ciências Humanas e suas Tecnologias.
Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2008.
|